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Miley Cyrus em modo DVD na MEO Arena – Reportagem

Miley Cyrus Bangerz

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Miley Cyrus em modo DVD na MEO Arena – Reportagem

Miley Cyrus regressou a noite passada a Portugal, por onde já tinha passado em 2010 para uma actuação no Rock In Rio Lisboa. À MEO Arena, a cantora trouxe «Bangerz», primeiro álbum depois de se reinventar enquanto enfant terrible da pop. O fenómeno de popularidade não se traduziu em números, e a sala esteve muito longe de encher. Quem esteve vai, no entanto, poder recordar para sempre a noite, já que foi imortalizada para um especial televisivo, o que levou a repetições e pausas anticlimáticas num concerto que, fora isso, foi uma vitoriosa mistura de referências estéticas psicadélicas, sexualidade descarada e recordações de uma infância próxima servidas em canções pop com sabores country e hip-hop, e uma piscadela de olho ao Indie, com versões de The Smiths, ou The Beatles. Miley, por seu lado, actua com o poder e segurança de quem sabe exactamente o que está a fazer, e onde quer chegar. O caminho que vai fazer até lá pode ainda não estar totalmente definido, mas a certeza é de que a cantora pretende divertir-se na caminhada.

Em palco, Miley é um exagero de si própria, e apresenta-se como a sua própria caricatura, dominando a imagem que quer passar. Logo ao início, isso torna-se particularmente evidente quando a cantora aterra em palco depois de escorregar por uma «língua» a sair de uma imagem da sua cara em ecrã gigante que ocupa toda a parte de trás de um palco de grandes dimensões. A abertura faz-se com o tema que dá (em parte) nome ao álbum «SMS (Bangerz)», originalmente colaboração com Britney Spears, que surge representada através de uma das bailarinas de baixa estatura que a cantora traz consigo, e que usa uma máscara de Spears, do tempo de «Baby one more time». O tema soa-nos a «Push It», das Salt-N-Pepa, e é um dos que representa bem a nova identidade de Miley, que passa logo para um dos melhores momentos de «Bangerz», «4X4», onde a afilhada de Dolly Parton vai buscar as raízes country. «FU» traz um tom de cabaret que a cantora domina na perfeição, e «Do Ma Thang» traz mais hip-hop, com a cantora a defender-se com poderio vocal da falta de flow que mostra em álbum.

Poucos seriam os que não estavam avisados, mas o sublinhado surge com o símbolo «conteúdo explícito» em palco durante «Love, Money Party», que traz a cantora cima de um carro dourado e com um fato feito de notas e pernas muito, muito abertas. Ao longo do concerto, Miley usa «fucks» como pontuação, dá água aos fãs cuspindo-a, faz o twerking que se tornou imagem de marca, e bate no rabo das bailarinas. O tema «#GETITRIGHT» é o mais sexual da noite, e é repetido para que fique bem no DVD. A canção, de assobio contagiante, leva a cantora a uma cama enorme, partilhada com várias bailarinas e bailarinos, em movimentos sexuais que farão corar mesmo que não se ache púdico, enquanto no ecrã, inocentes gomas são transformadas em imagens sexuais, ainda que mais discretas. Esta constante mistura do universo infantil com a sexualidade adulta torna-se perturbadora, e é mesmo esse o objectivo. Nada ali é espontâneo, mesmo que seja genuíno, o espectáculo é tão programado ao detalhe quanto qualquer outro de uma estrela pop de primeira liga. Na atitude, Miley grita «não quero saber de nada», no detalhe, mostra que está sempre atenta a tudo.

Ao longo do concerto, a sensação é de que se desviarmos o olhar durante poucos segundos perdemos dezenas de adereços e imagens, mais ou menos nonsense (há um cão gigante a lembrar o falecido Floyd, há pessoas vestidas de peluches gigantes, de isqueiros e de dedos de espuma, ou gatos dançantes). É por isso bem-vinda uma pausa na informação atirada em avalanche, quando a cantora muda para um palco mais íntimo no meio do pavilhão e avança para uma série de versões que incluem «You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go», de Bob Dylan, «There’s a light that never goes out», dos The Smiths, «Summertime Sadness», de Lana Del Rey, «The Scientist», dos Coldplay com a cantora a emocionar-se com um pequeno cão de peluche igual ao seu cachorro Floyd, que faleceu recentemnte, ou «Hey Ya», dos Outkast, com um arranjo muito parecido ao que criou para «There’s a light that never goes out». O momento de versões foi bom, mas demasiado longo, e termina com «Jolene», da madrinha Dolly Parton. Já antes, a cantora tinha cantado uma versão lenta e respeitosa de «Lucy In The Sky With Diamonds», editada em álbum de colaborações com Wayne Coyne, dos Flaming Lips, «With A Little Help From My Fwends». Os lucros remetem para uma associação de apoio aos animais, e a cantora pede por isso que comprem o tema, garantindo que geralmente não quer saber se as suas músicas são ou não compradas.

Para o fim, as mais pedidas, mas antes, «Someone Else» leva Cyrus até ao encore montada num enorme cachorro quente. «We Can’t Stop» eleva os decibéis de uma plateia que gritou o concerto todo, e no final toda a gente pede «Wrecking Balll». A cantora acede aos pedidos e canta a balada poderosa sozinha, e despida de adereços. A sobriedade assemelha-se à conseguida durante «Adore You» (em que os fãs foram encorajados a beijarem-se para aparecer nos ecrãs de palco) e ambos foram um dos melhores momentos dos concertos. A conclusão? Se quiser, Miley aguenta-se bem sem todo o espectáculo à sua volta.

O fim do concerto não se faz com «Bangerz», mas com «Party in the USA», um dos maiores êxitos de Miley na era «Hannah Montana». A canção, aparentemente inocente, é distorcida com vários símbolos dos Estados Unidos a serem caricaturados, e Miley em posições obscenas com um homem que se vestia de Abraham Lincoln.

Ao vivo, Miley Cyrus atira para todos os lados, quer em termos de estética, quer em termos musicais («Dark Side Of The Moon», dos Pink Floyd, tocava antes do concerto, e «Fitzpleasure», dos Alt-J foi banda-sonora de um vídeo de interlúdio, por exemplo). Faz o que lhe apetece como quem grita «estou aqui», mas consegue fazer da confusão uma identidade própria. Ela não está perdida, só está à procura do caminho certo. Falta-lhe agora mostrar que tem mais para dar, além da refrescante atitude directa. Só isso vai garantir um lugar além da efemeridade. Parece-nos que vai consegui-lo. Dizem que só as boas meninas vão para o céu, mas na MEO Arena, Miley seguiu direcção às nuvens, a cavalo num cachorro gigante. Agarrem-na se puderem, que ela não deve parar tão cedo.


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