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Cae: «não vou ficar preso a estereótipos»

©Nádia Dias // MYWAY

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Cae: «não vou ficar preso a estereótipos»

Cae lançou recentemente o single «Holding To Your Smile», e «se tudo correr bem» vai editar «Stories To Tell». Ao MYWAY, o músico diz que gosta é de contar histórias, mesmo que não sejam dele, e trazer som às imagens. A conversa foi longa, e sem contenções. Das raízes ao futuro, Cae conta tudo.

 

MYWAY: Tens vários trabalhos fora da música, em várias áreas. Como é que surge a música no meio disso?

Cae: É ao contrário. Os outros projectos é que surgiram no meio da música, para conseguir viver para já. O ideal será, se continuarmos a trabalhar bem – que é o que acho que estamos a fazer – passar a viver só da música. Por enquanto, preciso de dinheiro para viver, como as outras pessoas.

 

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MYWAY: No meio disso tudo, como é que é o processo de composição?

Cae: Já me perguntaram isso algumas vezes, e normalmente dizem: ‘ah, mas vais para a praia com os teus amigos?’. Não, não vou para a praia. Normalmente produzo em casa, porque as minhas músicas são mais introspectivas, preciso de estar nesse ‘mood’, que nem sempre há. Mas também não é uma coisa muito pensada, vai acontecendo, a não ser mesmo quando tenho alguma coisa muito específica que tenho de fazer para amanhã, ou para daqui a dois dias, e aí sim, tenho de me fechar e fazer. Mas normalmente ainda não tenho essa pressão de uma editora, ninguém a pressionar o meu trabalho. Isso depois às vezes prejudica o trabalho das pessoas. A pressão nem sempre é um bom aliado.

 

MYWAY: Tu lançaste recentemente o single «Holding To Your Smile», e já tinhas lançado algumas canções antes, em 2012. O que é que andaste a fazer entretanto?

Cae: Nada, fui à praia (entre risos)! Não, isto em Portugal é difícil, para qualquer tipo de arte, não é só a música, por isso o que eu andei a fazer foi a produzir isto que saiu agora. Andei a preparar um espectáculo novo. O meu espectáculo tinha um formato muito acústico, e eu tive que arranjar outros formatos para espectáculos maiores, porque fomos tocar às festas do Mar, e ao Campo Pequeno, funcionou bem, as pessoas adoraram, mas senti que precisava de pôr um bocadinho mais de power. Já que mudei de agência, mudei de manager, e mudei tudo para algo mais a sério, então parei mesmo para planear isso como deve ser, para que agora quando for tocar, as pessoas notarem a diferença. Parares para depois não haver nenhuma evolução é que é mau. Desde que haja evolução não há problema em parares. Acho que o nosso país é tão pequeno, o mercado é tão pequeno, que cada vez que sais e entras tens de fazer metade.

 

MYWAY: Essa mudança de que falas, vai-se notar no álbum?

Cae: Vai-se notar em alguns temas, mas vai-se notar muito mais ao vivo. Acho que tem de se fazer essa diferenciação. Tem de haver música ao vivo, e música de CD. Eu vejo por mim – eu trabalho também baseado naquilo que eu gosto – eu gosto de ouvir um CD no carro, ou em casa, mas quando chega ao vivo, não quero exactamente a mesma coisa. Já me aconteceu ir ver concertos – não vou dizer nomes – de bandas que eu adorava, e depois de ver ao vivo passei a gostar, mas…o espectáculo é uma coisa para a pessoa viver aquilo. Eu tenho os formatos todos: se for tocar a uma livraria vou só com o teclista, se for tocar a um palco grande já levo o baterista, tenho saxofonista, backing-vocals, teclados, guitarras, tudo. Tem de se transformar as músicas em espectáculo.

 

Das coisas melhores que ter bandas de reggae me trouxe foi ter a noção de que o espectáculo ao vivo é outra coisa.

 

MYWAY:Então quando compões já estás a pensar nessa fase?

Cae: Sim, sempre. Aliás, os nossos ensaios às vezes são chatos porque às vezes apareço com uma música nova, e depois de repente já estamos a fazer intros, e já estamos a fazer finais de som, e a ver onde é que entra o solo, e depois temos que nos focar: ‘não, isto é para CD, primeiro temos que gravar a música’. O reggae trouxe-nos isso. Das coisas melhores que ter bandas de reggae me trouxe foi ter a noção de que o espectáculo ao vivo é outra coisa. Foi uma coisa brutal, andámos a tocar pelo país todo durante algum tempo – em festivais grandes como o Sudoeste, e por aí – e percebemos isso, que as coisas não podem ser sequer iguais, e quem faz igual depois cai no esquecimento. Não marca. Olha o caso do Sam Smith, que fui ver ao NOS Alive. Eu conhecia algumas músicas dele, mas a partir desse dia ele ganhou mais um fã à séria, porque o espectáculo dele ao vivo é inacreditável, e não tem nada a ver com o CD!

 

MYWAY:Isso também tem a ver com a banda que acompanha o artista?

Cae:  o que eu digo aos meus músicos, em Portugal tens de ter sempre músicos contratados, porque normalmente ninguém pode viver só de uma banda, mas eu tento sempre fugir a isso. O baterista é meu amigo há uma data de anos, e era o baterista de outro projecto. O meu baixista era baixista de outro projecto – eles são irmãos – o meu teclista já estava connosco há muito tempo. Depois, ao vivo nota-se. A coesão não é uma coisa que tu não ganhas ao ensaiar duas vezes. Tens de tocar mil vezes com essa pessoa para quando chegares ao vivo dares uma nota e ele já sabe o que é.

 

MYWAY: Como estavas a dizer, estiveste numa banda de reggae, mas o teu estilo de música é agora um bocadinho diferente. De que forma é que fazeres parte desse projecto te influenciou?

Cae: Eu oiço muita música pop, mas adoro reggae, e gosto muito de hip-hop…RnB já não é uma coisa que eu oiça muito, mas como tenho amigos que cantam esses estilos de música, estou sempre atento ao que se faz, mas reggae oiço. Uma das músicas que mais marcou a minha vida, é uma música de reggae dos Steel Pulse, Your House. As pessoas se calhar estavam à espera que eu dissesse uma música do Ben Harper, ou assim, mas não, é mesmo de reggae. Durante três ou quatro anos ouvi reggae todos os dias, portanto também é normal…agora, no meu estilo musical? Não teve assim grande influência. Sempre foi isto, eu tinha a banda de reggae, era guitarrista e back vocal, mas sempre fiz as minhas músicas à parte, sempre trabalhei. Portanto, deu para diferenciar bem as coisas.

 

MYWAY: Já nessa altura sabias que te querias lançar a solo?

Cae: Claro que queria, mas quando tenho um projecto estou muito focado nele – seja o que for – e durante aquela altura em compunha, mas porque tocava com amigos meus, e todos estávamos dentro da mesma onda, e com um propósito, não podia estar ali numa de…também por isso é que a banda acabou, as pessoas começaram a desfocar-se um bocadinho daquilo. Eu não queria que isso tivesse acontecido, porque aquela banda podia facilmente ter ido muito longe. Nós tínhamos músicas nas novelas, íamos tocar a todo lado…não tínhamos sequer comunicação, não tínhamos nada, era só porque as pessoas gostavam. Até porque hoje em dia, o reggae português tem muito poucas coisas. É o Richie Campbell, e vais procurar mais, tens uma coisa ou outra, tens soundsystems, mas reggae reggae…eu sei que é uma coisa de modas, mas o Richie está há anos a tocar, portanto tem a ver é com a qualidade musical, só. Às vezes as coisas não são boas, por isso é que não pegam. Acho que faziam falta mais festivais com música portuguesa, para ver se fazíamos isso crescer um bocadinho. O Hip-hop está óptimo, finalmente a música portuguesa está a ter sucesso. E eu não falo contra mim, porque eu canto em inglês, mas sou português, não tem nada a ver. Sou um produto feito aqui, em Portugal. Graças às rádios só passarem músicas inglesa durante muitos anos, é que eu cresci a ouvir isso. A culpa é minha, mas não é só minha, a culpa também é do mercado. Tu vais a Espanha e vês um filme, é dobrado, vais a França, é dobrado, vais ao Brasil, é dobrado. Nós não, eu tinha 4 anos e via o «Indiana Jones» com legendas, sabia as frases que o Harrison Ford dizia em inglês. Graças a Deus que é assim, somos dos países da Europa que melhor falam inglês, tirando se calhar alguns nórdicos, e a Alemanha. Acho que isso não é impeditivo.

 

MYWAY: Não te interessa, então, essa distinção sobre a língua em que se canta?

Cae: Eu não faço distinção nenhuma disso. Eu vejo, olha os casos de sucesso em Portugal. O Richie canta em quê? O David Fonseca canta em quê? E podemos continuar! Mas depois também tens música muito boa feita em português, os HMB, os The Black Mamba têm músicas em português e em inglês, o Agir canta em português, a Carolina (Deslandes) canta em português e em inglês. Eu acho que isto é muito importante: a música é uma linguagem, não tem de ter língua. Eu gosto de músicas do mundo que se calhar não percebes ‘ponta’ do que eles estão a dizer. Eu hei de fazer músicas em português, estou à espera da melhor altura para as poder lançar, não vejo isso como um problema como às vezes as pessoas dizem. Hoje em dia com a Internet, as fronteiras já não são físicas, isso acabou. É ridículo alguém achar que um português não pode cantar em inglês.

 

MYWAY: Vais lançar um álbum chamado «Stories To Tell»…

Cae: Vou, se tudo correr bem! (Risos) Se o dinheiro aparecer, vamos gravar, vamos.

 

Adorava que me dissessem: ‘tens aqui esse filme, tens de fazer oito músicas’. Melodicamente é sempre bom teres um incentivo para uma coisa mais específica.

 

MYWAY: Fizeste crowdfunding, certo?

Cae: Sim, para este videoclip (Holding To Your Smile) e infelizmente o dinheiro não chegou para mais. Tudo o que seja plataformas viáveis, e boas, eu vou utilizá-las. As pessoas que mais ajudaram foram pessoas chegadas, que é o que acontece normalmente, mas também é uma maneira de pedir dinheiro às pessoas que te conhecem, e dizer: ‘olha, eu estou a pedir dinheiro, mas está aqui’, porque aqui em Portugal as pessoas acham que vais agarrar no dinheiro e ir de férias para a República Dominicana. O português acha sempre que o dinheiro não é para as coisas certas. Mas foi, e está aí visível a qualidade do videoclip. Prefiro fazer poucas coisas com qualidade, que uma ‘catrefada delas’ horríveis.

 

MYWAY: O facto de teres tanto cuidado com um videoclip, reflecte uma intenção de cuidar também da forma estética como a tua música é apresentada?

Cae: Eu crio muitas vezes a pensar nisso, mesmo. Às vezes até faço o exercício ao contrário: ponho imagens da Indonésia, de surf, sem som, e eu fico a tocar. A minha música é exactamente para isso. Eu tenho pena de ainda não ter conseguido, mas eu sei que vou lá chegar, associar a minha música a campanhas, a coisas. Por exemplo, esta música «Holding To Your Smile», quantas marcas não têm coisas ligadas ao sorriso. Não é preciso ir lá fora, temos milhares de músicas boas. O meu sonho é esse, para mim, fazer bandas-sonoras. Adorava que me dissessem: ‘tens aqui esse filme, tens de fazer oito músicas’. Melodicamente é sempre bom teres um incentivo para uma coisa mais específica.

 

Tento transportar as pessoas da minha vida para a minha música

 

MYWAY: Então as «Stories to Tell» que dão nome ao disco, não precisam de ser tuas?

Cae: Eu sou só um contador de histórias. Muitas são minhas, outras ou vivi, ou presenciei, ou contaram-me. Por exemplo, o tema «Stories to Tell» que ainda não saiu, mas já está feito, é sobre um dos meus melhores amigos que teve um filme gigante, e foi preso. Esteve seis anos preso em Ibiza, uma coisa que foi uma injustiça do outro mundo. Eu fiz uma música sobre isso, porque ele próprio tinha ‘stories to tell’. Tinha coisas para contar sobre a história dele, e eu fiz a música sobre isso. Eu não tenho de ter vivido, eu tenho é de ter presenciado. Eu escrevo as minhas músicas, mas se me aparecer alguém com uma ideia, com uma letra, que calhe bem com a minha melodia, e que eu sinta, que eu ache que posso contar, eu também faço. Ainda não aconteceu, mas posso fazer.

 

MYWAY: Este single foi produzido pelo Agir, e tens trabalhado com a Carolina Deslandes, eles também vão estar presentes nos teus próximos passos na música?

Cae: Sim. Eu tento transportar as pessoas da minha vida para a minha música, e felizmente consigo, porque os meus amigos mais chegados estão todos ligados à música. Felizmente tenho essa sorte. A Carolina, o Agir, o Dengaz, e mesmo o Richie são pessoas que eu conheço há imensos anos. Por acaso calhou, fomos desenvolvendo isto todos juntos, e acho que faz sentido. Lá fora faz sentido, porque é que cá não se faz? É mais um problema que o português tinha, que está a deixar de ter. O português tem sempre medo que o que está ao nosso lado esteja melhor que nós. Trabalhamos sempre em função do: ‘não vou ajudá-lo, vou é arranjar maneira de passar por cima dele’. Mesmo nos negócios, eu tinha um bar no Estoril, e havia pessoas que diziam: ‘ainda bem que não há aqui mais nada’. Ao contrário, é uma m*rda não haver aqui mais nada, porque quanto mais coisas houver, mais pessoas vêm para este sítio. Se nós somos todos músicos, porque é que eu não hei-de fazer músicas com o Dengaz, com o Richie, com a Carolina, com todos? Há tantos músicos que eu admiro, e que gostava de trabalhar com eles. Acho que esta cena das junções está muito ligada ao hip-hop, no hip-hop é que eles fazem muito isso, mas eu vou passar isso para a minha música, não vou ficar preso a estereótipos.

 

MYWAY: Vês a música como partilha?

Cae: Claro. Acho que a música é isso mesmo, fazer com que as pessoas as associem a sentimentos e situações, mas basicamente é a partilha de uma coisa que eu faço. Se eu tenho a Internet, o que é que me prende? Já não preciso de estar dez horas à espera, de EP na mão, num estúdio, que é como se fazia antigamente. Bandas que ficavam dias e dias à espera que alguém ouvisse a maquete deles. Hoje em dia, em dez minutos está na Internet, faço, gravo e ponho. Não é o caso, eu tenho feito as coisas com muita produção, e qualidade, mas é assim que vou trabalhar daqui para a frente.

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