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Capitães da Areia: «Tudo o que incomoda as pessoas é bom para nós»

Capitães da Areia
©Divulgação oficial

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Capitães da Areia: «Tudo o que incomoda as pessoas é bom para nós»

Ainda 2015 dava os primeiros passos quando os Capitães da Areia regressaram, com pouco aviso, mas muito estrondo, e um álbum conceptual sem intenção de o ser. Em 75 minutos, a banda contou a história épica d’«A Viagem dos Capitães da Areia a bordo do Apolo 70», que conta com histórias «parvas», e convidados que vão de José Cid a Rui Pregal da Cunha, passando por Toy, Manuel Fúria, ou…Bruno Aleixo. Com a música sempre no centro, eles juram que tudo se foi construíndo por acaso, mas sem desleixe. Falámos com os músicos Tiago Brito e António Moura,em vésperas da apresentação do novo trabalho no Musicbox, em Lisboa.

 

«Quando alguém faz o que lhe apetece na música está sempre a fazer alguma coisa genuína, e quase de certeza que vem com qualidade, mesmo que falhe.» – Tiago Brito

 

MYWAY: O vosso álbum relata uma viagem pelo espaço a partir do centro Comercial Apolo 70. Como é que olharam para o centro comercial e acharam que deviam fazer uma viagem pelo espaço a partir de lá?

Tiago Brito: Basicamente, quando lançámos o primeiro disco já tínhamos algumas músicas, já tinha feito alguns instrumentais – mais ou menos em 2011/12 – com essa onda mais…de sintetizadores, por aí, e algumas coisas tinha posto (o nome) «Apolo 70» porque tinha assim uma onda mais espacial. Depois nós começámos a trabalhar nessas canções, e foram coincidências atrás de coincidências. O Apolo 70 vem da piada que diz que se Portugal tivesse uma nave espacial chamar-se-ia Apolo 70, porque já há o Apollo 11…e pronto, começámos a trabalhar nas canções, convidámos uma ou duas pessoas para gravar connosco, e depois começámos a criar a história, mas sempre em conversas, íamos falando: ‘não era giro convidar não sei quem?’…basicamente foi isso! A ideia do disco conceptual como as pessoas o pensam, nós nunca tivemos em conta. As coisas foram acontecendo por acidente, nós pensámos nas coisas, mas foi por acidente. Esta parte da história, de ter narrativa, começou pela ideia do Apolo 70. O Apolo 70 é um centro comercial – o António estuda direito – e havia lá dentro uma livraria de direito…

António Moura: …e a ideia do disco é eu ir lá buscar um disco, o Vasco carrega no botão proibido, e aquilo transforma-se em nave.

Tiago: Exatamente, porque no início dessas canções costumava pôr uns sons de naves…a história nunca teve um início nem um fim. Até ao fim do disco nós não sabíamos qual era o início, e qual era o fim, nem qual era o meio. Fomos construindo as coisas a cada passo, por isso não houve a ideia de fazer um disco como um todo. Basicamente nós sentimos que nos apetecia ter uma ideia e concretizá-la, e não pensar: ‘ah, depois ninguém vai ouvir’. Pensávamos assim: ‘bora convidar o Bruno Aleixo, mesmo que não tenha nada a ver com música, e depois temos uma conversa com ele no espaço…’

António: E os convidados foram todos assim. Nós estávamos à conversa, a ter ideias sobre coisas para o disco, e dizíamos: ‘olha, quem é que fica fixe aqui?’…

Tiago: Pegávamos também em alguns clichés…Por exemplo nos compararam muito com os Heróis do Mar, e nós pensámos: ‘se nos comparam aos Heróis do Mar, vamos convidar o Rui Pregal da Cunha. Depois disso surgiu o «Duelo dos Reis» porque havia uma letra que começava com o querer ser rei, e começámos a pensar quem é que poderíamos convidar para o «Duelo dos Reis». No caso dos Capitão Fausto, por exemplo, somos da mesma geração, somos amigos e tudo – mas as pessoas não sabe, né? – e as pessoas às vezes acham que temos alguma rivalidade com eles, mesmo não tendo nada a ver.

António: Houve mesmo um artigo que era tipo rivalidade rock / pop com os Capitão Fausto…

Tiago:…uma coisa completamente parva. Se nós ficássemos ofendidos com alguma coisa tentávamo-nos afastar, mas nós até gostamos de apoiar as ideias que as pessoas dão. Nesse caso, pensámos: ‘ah, há essa realidade? Então vamos fazer uma batalha com eles, em que eles nos dão uma coça’. Para responder à tua pergunta, nunca houve a ideia de fazer um disco conceptual. Chegámos ao fim do disco e começámos a perceber que as pessoas vão achar que é um disco conceptual. Nós nunca fizemos as coisas sem pensar, estivemos sempre em brainstorming, e acho que conseguimos definir o nosso caminho, que é: vamos fazer o que nos apetecer, mas não em termos caprichosos. Quando alguém faz o que lhe apetece na música está sempre a fazer alguma coisa genuína, e quase de certeza que vem com qualidade, mesmo que falhe.

 

«Gostamos de provocar e de ver depois as reações» – Tiago Brito

 

 

MYWAY: Então, apesar de não se preocuparem com o que as pessoas iriam achar do resultado, parece-me que têm bem a noção do que se diz sobre vocês, certo?

Tiago: Nós estamos atentos ao que acontece…

António: E pegámos em muitas dessas coisas. Se alguém diz ‘eh pá, não gosto do disco’, nós vamos dormir na mesma. Achamos piada a essas coisas. Por exemplo, já sabíamos que se lançássemos o disco a ver com o espaço, e com história, toda a gente ia falar do José Cid, do «Dez Mil Anos entre Vénus e Marte», então ‘bora estar «entre Vénus e Marte»!

 

 

MYWAY: Um bocadinho provocador, então…

Tiago: Sim, nós gostamos de provocar e de ver depois as reações, isso gostamos. Têm saído críticas muito boas – e ficamos contentes – e críticas muito más, com as quais também ficamos contentes, na maior parte das vezes. Tudo o que incomoda as pessoas é bom para nós. O pior que nos pode acontecer é…

António: É o médio.

Tiago: Darem-nos 3 estrelas? Não gostamos. Darem-nos 4, ou 5, 1 ou 2, muito bem. Agora 3, é o pior que nos podem fazer.

António: deve ser das poucas coisas que nos incomoda, não causar reação nenhuma.

 

«Levamos a sério o nosso trabalho, não nos levamos a sério a nós.» – Tiago Brito

 

 

MYWAY: As reações estão a ser, então, as que pretendiam?

António: Acho que sim! Mais até pela positiva do que eu estava à espera.

Tiago: Nós tivemos esta ideia também porque vivemos numa altura em que a maior parte das pessoas não ouve discos do início ao fim, ouve músicas. Depois nós ficámos conotados com algumas músicas no «Verão Eterno…» ninguém ouviu o disco, tocávamos músicas em concerto que as pessoas não conheciam, achavam que eram antigas e tudo. O que fizemos neste foi…nós fazemos o que nos apetece, mas bem pensadas, não andamos a brincar…

António: (em tom de gozo) Isto não é uma brincadeira!

Tiago: Quer dizer, andamos a brincar, mas seriamente. Levamos a sério o nosso trabalho, não nos levamos a sério a nós. Voltando a essa questão de querermos que as pessoas oiçam o disco do início ao fim, foi quase uma partida, ‘vamos meter aqui umas historiazinhas, as pessoas distraem-se, e ouvem o disco até ao fim’. Para nós, o mais importante do disco são as canções. Nós fazemos músicas, não fazemos interlúdios, nem fazemos histórias, e por isso as músicas foram muito bem trabalhadas. Nos interlúdios mostramos uma caricatura do que nós somos, o expoente máximo do que nós somos. O António realmente estuda direito, e isto poderia acontecer.

António: E sou o tipo que não sabe o que é que quer dizer «Rosebud», e que ainda não viu o filme («Citizen Kane»).

Tiago: Por exemplo, teria de ser o Vasco a carregar no botão encarnado.

António: Porque ele faz tudo o que não é suposto achando que sabe tudo…

Tiago: Mesmo a saída dele, ele saiu da banda, e nós criámos uma história para homenagear o Vasco, em que ele vai com as Ninfas, e obviamente que ele teria ido com as ninfas! Há interlúdios irritantes, porque realmente somos um bocado irritantes.

António: Pois, somos parvos! Houve muita coisa que foi selecionada, porque nós temos muitas conversas daquele estilo – intermináveis e parvas – e achámos que era mesmo nosso pôr aquilo no disco.

Tiago: Nós andávamos sempre com o microfone atrás, e gravávamos conversas. Metíamos a gravar, e ficávamos a falar, falar e falar. Aquela conversa do início, começámos a ouvir e foi: ‘vamos pôr esta parte’. Senão tínhamos posto uma hora. Mas ninguém nos quer ouvir uma hora. Mesmo assim já foi um bocado demais (risos).

 

 

MYWAY: Foi difícil montar essas peças todas?

António: O tempo das canções foi pela canção em si, não foi pensado tendo em conta o disco, mas tendo em conta o lugar da canção no disco, e como ficava bem, mas os tempos das coisas foi o limite do disco. Nós chegámos ao fim, e tínhamos tanta coisa que pensámos: ‘temos de acabar porque só temos mais alguns segundos de disco’.

Tiago: E não podíamos fazer um duplo, porque basicamente não tínhamos dinheiro.

António: Por um lado ainda bem, a coisa ficou um bocadinho mais concentrada, e apesar de para nós ser divertidíssimo fazer aquelas palhaçadas todas, percebo que um disco duplo de conversa não seja tão interessante.

Tiago: Muitas das coisas foram captadas neste microfone, algumas coisas eram escritas, porque com os convidados era mais difícil. Não podia ser horas e horas ali a falar, porque as pessoas também fazem outras coisas na vida. Alguns interlúdios foi mais uma seleção de cortar coisas, quase como no cinema, cortar planos.

 

 

MYWAY: Têm toda a gente que queriam ter neste álbum?

António: Só não temos um convidado que queríamos, o Bruno Morgado, que não podia. Foi pena, mas há de participar connosco noutras coisas.

Tiago: Temos mais mil ideias, mas temos de parar a uma certa altura, para não fazer três discos.

 

 

MYWAY: Já têm material para isso?

Tiago: Nós temos bastante material, mas não sabemos o que é que vamos fazer com ele…

António: Um lado-b…

Tiago: Alguns até eram lado-A, mas não encaixavam. Agora queremos que as pessoas oiçam o este disco e já chega. Depois logo vemos.

 

«Não vamos reproduzir o disco com falas, não vamos fazer ali um teatro de revista com o disco.» – António Moura

 

 

MYWAY: Como é que vai ser passar para os palcos um disco com tantos detalhes?

António: Não vamos mudar especialmente os nossos concertos. Quer dizer, acabámos por mudar a estrutura da banda, mas não vamos reproduzir o disco com falas, não vamos fazer ali um teatro de revista com o disco. Acho que vamos tocar as canções que achemos mais fortes, dependendo do concerto.

Tiago: Os concertos para nós têm de ser uma festa, as pessoas dançam, cantam…os interlúdios nunca foram uma opção para nós. Nós não fazemos teatro, somos músicos, somos péssimos atores.

António: Mesmo no disco isso se nota (risos) somos maus atores a falar quando é uma coisa que era de guião, porque algumas coisas tinham de ser.

Tiago: Pá, somos tão bons como os «Morangos com Açúcar». Também não nos valemos valer dos convidados, porque basicamente o disco é nosso, as canções são nossas, e estamos a preparar-nos para tocar em qualquer lado. Este concerto de dia 21 de Fevereiro no Musicbox podem ver mais ou menos como é que é este formato novo, vamos tocar bastantes músicas do disco novo. Basicamente é uma festa, sem parar, sempre a abrir. Por isso, os interlúdios seriam um bocado empata…

António: Empata grupos, sim. Queremos é que os concertos valham por nós. Se por acaso um dia não há convidados, como é que é? Queremos que seja a festa na mesma.

Tiago: Se estes concertos valessem pelos convidados tínhamos de acabar a banda. Mas nos adoramos! Agora estamo-nos a preparar como banda para tudo o que acontecer, seja numa aldeia, num sítio gigante, numa discoteca…se tivermos convidados, ótimo, porque também será giro ter essa interação.


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